quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Voo de uma alma gentil

Minha senhora, oh minha senhora, venha cá se faz favor…
E lá ia eu com um sorriso no rosto . Perguntava-lhe”diga-me dona Ducelina, precisa de alguma coisa?
Ela olhava para mim, com os olhinhos muito abertos e um sorriso encantador e dizia:”olhe eu preciso de lápis para fazer as contas , quero pagar”
Eu respondia que não precisava pagar nada mas como ela insistia, eu sossegava-a dizendo que no final do dia faríamos contas.
Ela anuía com o olhar mais descansado e dizia que estava bem….fazia-lhe umas festinhas ela dava-me um beijo e eu continuava os meus afazeres.
Durante o dia, era chamada amiudadas vezes sempre para esclarecer o mesmo assunto… saber quanto devia para efectuar o pagamento.
De manhã era sempre a mesma coisa.Abeirava-me da sua cama, dizia bom dia questionava como tinha corrido a  noite.E aquela criatura, sempre com um sorriso dizia”dormi tão bem, tão quentinha….”depois pedia-lhe para se sentar e respirar fundo, antes de se por de pé…..
“dona Ducelina,dizia eu….agora vamos tratar de si, para que possa ir para o solinho”
E ela respondia…Sim minha senhora é isso que eu quero, ir para o solinho. Na cabeça dela ia mesmo para o solinho, mas na verdade ia para um sofá ao canto da sala,onde permanecia todo o dia  até que chegasse a hora de se deitar…no dia seguinte o mesmo ritual….levantar-se fazer a higiene e ir para o solinho.
De quando em vez a senhora iniciava um discurso sem nexo, fazendo alusões ao passado, mas eu escutava-a deliciada.E sempre que tratava dela,dizia-lhe o quanto estava bonita, mas ela retrucava imediatamente que já tinha sido bonita agora estava velha….e eu dizia, ok, agora está uma velha bonita e sorriamos as duas.
Ultimamente a sua saúde deteriorou-se e na passada quarta feira, assisti aos seus últimos sopros de vida. Quando cheguei à sua cabeceira apercebi-me que a senhora Ducelina estava prestes a abrir as asas para rasgar o tempo e o espaço e ir ao encontro da perpetuidade. Agarrei as suas mãos geladas e chamei pelo seu nome:Dona Dudu(era assim que a tratava) oh dona Dudu, então.... olhe para mim, sou eu ,a Carmo….mas a dona Ducelina não abriu os olhinhos, a respiração tornou-se irregular e de repente ….a dona Ducelina tinha partido…dei-lhe um beijo e disse para seguir o seu caminho e fui fumar um cigarro enquanto olhava para o infinito imaginando a dona Ducelina já num lugar qualquer, onde o sofrimento primava pela ausência. Voltei ao quarto onde estava o seu corpo, agarrei-lhe nas mãos inertes e olhei para ela uma ultima vez.
Dona Dudu, vou sentir saudade suas , da sua  voz ao chamar por mim” minha senhora, venha cá se faz favor”.Das suas dissertações sem nexo, frases soltas resumos compactos do seu passado a que não tive acesso.
Mas sei que esteja lá onde estiver, estará com certeza ao solinho e a pedir lápis para fazer contas….pelo menos estará sempre presente nas minhas recordações.

Carmo Bernardo

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