quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Silêncio Siberiano

Trimmmm
Ela atendeu o telefone e ao principio nem sequer reconheceu a voz do outro lado da linha.
-Sim, estou?Perguntou ela
-Olá, há quantos anos-respondeu uma voz pausada  e imbuída de emoção.
E com esta frase tão simples ela percebeu quem estava a telefonar-lhe.
Não foi pela voz, mas sim por esta frase tão simples.
Toda a sua alma voou dali para fora de encontro ao tempo em que ainda era menina e dava longos passeios pela praia.
O seu corpo estremeceu, o coração disparou em várias direcções, atropelou emoções há muito adormecidas.
Há tanto tempo, meu Deus, que não ouvia a sua voz.....já tinha arrumado as lembranças , num lugar esconso , onde quase nunca entrava, onde era sempre inverno.
E enquanto ele falava, todas as reminiscências entoavam cantos difusos, entre as lágrimas e a incredulidade.
-Porquê agora?-perguntou-lhe  ela.Já passaram tantos anos....porquê agora?
-Já devia ter sido há mais tempo-disse ele.
Ele falou como se toda a ausência , por si imposta, de repente não tivesse tido significado. Como se não tivesse havido um lapso temporal tão profundo, deixando visíveis marcas tão características como a mágoa.
Eu estava presente e consegui perceber o quanto este telefonava teve impacto na sua vida.Ela pensava ou queria pensar que a ausência dele fazia parte das mágoas ocultas e já tinha decidido que a sua vida continuaria sem a presença dele e cresceu.Cresceu para si e para os outros, tornou-se uma pessoa com princípios mas com uma acutilância que empresta às palavras quando lida com gente acéfala.
Cresceu no amor, na força e na inteligência prática.Cresceu do mundo e para o mundo sempre com algum sentimento errático, porque são erráticos todos aqueles que sabem pensar...precisam de o ser para se poderem encontrar.Todos os alicerces construídos para se proteger da mágoa resultante da ausência dele  colapsaram e por momentos ela considerou a hipótese daquele telefonema não ter passado de um mero sonho.Afinal já tinham passado tantos anos.Anos de inquietações profundas, lágrimas e sonhos vazios.
Agora estava a telefonar-lhe.....que pensar, que sentir,que ilações subtrair?
Combinaram encontrar-se.Nervosa acedeu, sim, iria encontrar-se com ele.Mas será que ainda o reconheceria?Teria o mesmo discurso, a mesma postura que alimentou a distância e os catapultou para esferas emocionais diferentes?E porque?Porquê agora, que a sua vida tinha acalmado, bebido da essência da estabilidade.
Encontraram-se na praia, numa esplanada qualquer porque a geografia do espaço não tinha qualquer preponderância para aquele encontro.Podia ser num sítio qualquer.
Ela chegou primeiro, com o corpo trémulo e a cabeça a a latejar.Fumou um cigarro e aguardou que ele chegasse.
Abstraída nos seus pensamentos olhando o infinito do mar, nem se apercebeu da sua chegada.
Lá estava ele, defronte dela, após alguns anos de ausência.
A rapariga sorriu, nervosa, mostrando a brancura dos dentes que por momentos fizeram brilhar aquele encontro e esquecer a ansiedade.Ele também sorriu.Alguns cabelos brancos vestiam a cabeça, dando-lhe um ar mais velho daquele que ela se lembrava.Contudo, quando falou, ofereceu-lhe um sorriso imenso, parecido com o dela.
O momento foi emocionalmente ambíguo, um misto de alegria e também de alguns laivos de tristeza....afinal, estiveram ausentes um do outro durante muito tempo.
A conversa fluiu, ele dissertou sobre o passado, o seu percurso como pessoa, crítico literário e como pai.Ela falou de si, dos seus sonhos, dos momentos que a fizeram crescer.Ele falou das mágoas , ela falou dos porquês.E a conversa foi acompanhada de lágrimas, umas de tristeza outras da alegria de estarem juntos.


  • Nenhum

    Vais achar estranho estar a enviar-te esta mensagem, até porque não nos conhecemos, mas como dizia Pessoa, primeiro estranha-se depois entranha-se.Nada nesta vida é garantido, mas as relações pais/filhos, deviam ser catapultadas para uma esfera distinta, onde só cabem sentimentos profundos(...)sou mãe e não concebo a minha vida sem a minha filha, uma extensão de mim, um ser humano maravilhoso.Não consigo perceber, como é que no meio de tanta filosofia de vida não cabem considerações mais pragmáticas nomeadamente as preocupações pelo percurso de vida dos filhos, os seus dilemas e preocupações .Nada sei de ti, bem como nada sabes de mim, sou para ti uma pessoa estranha , é normal nunca tivemos oportunidade de conversar.Mas tiveste essa oportunidade com a minha filha Andreia e como mãe sinto-me extremamente confusa pelo facto de saber que outra mãe, neste caso a mãe da irmã da minha filha, não fomenta a aproximação entre dois seres que têm um vínculo.
    A evolução do ser humano passa por uma série de etapas mais ou menos dolorosas,algumas que nos transcendem e exigem um esforço acrescido mas na minha opinião algumas delas dependem exclusivamente de nós é uma questão de bom senso.
    Existem desígnios complexos, mas as relações entre pais e filhos não têm que ser assim...
    Só eu sei a mágoa que a Andreia sente por esta situação ridícula, fomentada pela pessoa que devia estar perto da alma e do coração.Curiosamente repete-se uma situação familiar:Júlio César...César...Andreia...pessoas que têm tanto em comum , mas por pura estupidez negligenciam os filhos e tornam-nos pessoas tristes, deliberadamente.
    Não estou de todo á espera que me respondas nem sequer tenhas em consideração este meu desabafo....já passaram tantos anos e nada aconteceu.Mas sinto-me mais aliviada, talvez um dia estejamos frente a frente e posso olhar para ti , sabendo que esta mãe Carmo preocupa-se pelo facto de haver pessoas tristes pela ausência...pai/filha e irmã/irmã.
    E poder-te-ei dizer, em consciência"tu nada fizeste para alterar a situação".
    Carmo Bernardo

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