quarta-feira, 14 de agosto de 2019

“ infectum causas”

Confesso que não tinha pensado escrever sobre o assunto.
Fui vendo pontualmente várias figuras publicas e não só, aturdidas quiçá pela temperatura da água, com aquele ar apatetado de quem está a ser filmado, calculando os gestos, característico de quem procura protagonismo.
Nada tenho contra campanhas que visem o bem estar alheio, se bem que na minha opinião a dádiva vem da vontade individual de se querer fazer bem, pura e simplesmente para ver o outro feliz.
Mas enfim, se alguma exposição pública conseguir atingir os objectivos, tudo bem.
O que me faz assaz confusão, é banalizar a bondade,tornando-a viral.
Acredito, peço desculpa se firo susceptibilidades, que a maior parte das pessoas, senão todas, fê-lo apenas para ficar para a posterioridade, com aqueles gritinhos medonhamente profusos, aquela pseudo dificuldade em derramar sobre si um líquido que supostamente terá uma temperatura menos confortável…mas quem é que nunca tomou banho em água fria? Não me consta que a água do mar seja morna!
Mas como disse, não pretendia de todo escrever sobre o assunto. Contudo, fiquei extremamente surpreendida por algumas pessoas fazerem parte desta iniciativa, honestamente reconhecia-lhes méritos distintos.
E então em conversa com a minha filha, esta lançou-me um repto: -porque não escreves  uma daquelas tuas crónicas?
-Ok, disse eu, vamos lá a isso.
Não quero ,de todo ,entrar em preciosismos distorcidos e levianos sobre o assunto.
Na verdade, cada um é livre de fazer o que lhe der na gana, desde que não irrompa de forma dilacerante na liberdade de cada um.
Portanto se consideram correto vazar um balde de água fria sobre a cabeça e chamar-lhe onda de solidariedade para a recolha de fundos no combate à esclerose lateral amiotrófica, tudo bem.
Se consideram correcto não permanecerem incógnitos e registarem o momento com fotos e vídeos, tudo bem.
Num instante se passou de banho individual a banho colectivo, deve ser muito cool, guincharem todos aos mesmo tempo, imitindo um som estereofónico, fazendo quase sentir a necessidade de gastar alguns euritos nuns tampões auditivos.
Sempre com grandes sorrisos, afinal nada como relembrar estes momentos, mais tarde, em que uma dose de filantropia contagiante se assenhoreou do nosso coração.
Afinal não é todos dias que nos preocupamos com causas de cariz tão magnânimo.
Bom,  esta moda dos banhos tem qualquer coisa de positivo…por algum tempo temos um país mais limpo. Vi um vídeo inclusive em que alguém até usou shampô!!
Na minha humilde opinião ,existem imensas  formas para  dar a conhecer determinadas causas, como por exemplo através dos meios de comunicação, nomeadamente a televisão que é exaustivamente usada para debates estéreis e outras tantas iniciativas que não acrescentam nada de bom á vida de cada um, a não ser gerar discussões imbuídas de veneno e fatuidade  afectada. Também se pode recorrer a jornais. Nas escolas pode haver alguma sensibilização sobre o assunto. Onde hajam pessoas, basta criar os meios.
E sugiro que os grupos parlamentares, naquelas reuniões infindáveis ,muitos deles a tirar macaquitos do nariz, ao telemóvel ,de olhos cerrados,  quiçá resultado de  um momento introspectivo, ou distraídos a vislumbrar a imensa sala como se fosse a primeira vez, dando pontualmente umas gargalhadas desdenhosas face ás ideias dos adversários políticos, para afirmarem a sua presença e justificarem o seu salário(…) ao invés de se atacarem e reduzirem toda a problemática do país a meras questões e ódiozinhos pessoais, achincalhando-se uns aos outros como petizes mal educados a precisar de umas bordoadas,  há que abordar temas realmente interessantes, no sentido de dignificar o ser humano e fazer progredir este país maravilhoso com algumas pessoas magníficas.
E agora sou eu que lanço um repto aos altruístas efémeros do país.
Peguem nos seus popós ou noutro meio de transporte qualquer, para ir buscar uns balditos de água ao mar, assim poupa-se  água potável e evitam-se ondas de mal dizer contra o governo no que concerne ao preço astronómico da água .
 Ocorreu-me subitamente uma ideia…os praticantes destes banhos, podiam eventualmente eternizar o momento, de forma colectiva, bem entendido, assim só se tira uma fotografia e á semelhança de Virgínia Woolf, encher os bolsos de pedras e caminhar em direcção ao mar.
Eu pessoalmente não os acompanharei…não porque receie água fria ou porque seja uma pessoa egoísta que não pensa nos outros, nada disso , asseguro. Simplesmente reservo-me o direito de não pactuar com estas iniciativas.

Carmo Bernardo

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