quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Dikhotomía





Correndo o risco de ser mal interpretada mas normalmente  não sei se por defeito ou feitio a minha opinião diverge das demais opiniões, não concordo de todo, que haja um dia especificamente dedicado seja lá aquilo que for: o dia da terceira idade, o dia da juventude, o dia da mulher(…) porque para mim, considero essas acções redutoras ,já para não dizer que se trata apenas de convergir interesses quiçá tendenciosos.
Mas o dia da mulher porquê? Acaso a mulher não existe todos os dias? Com uma florzinha a abanar na mão e um sorriso rasgado caminham pela rua com ar poderoso, para regozijo  de quem lhas oferece. No dia seguinte os passinhos são sofridos, com olhar cabisbaixo, afinal já não é dia da mulher e já não se oferecem gerberas de cores garridas e odor ausente. Tudo volta ao normal, com as injustiças de sempre ,os dilemas(…)possivelmente estou a ser severa, afinal também sou mulher, mas é também por isso que me reservo o direito de manifestar esta opinião que decerto e compreendo, não se coaduna com a generalidade.
O dia do idoso, por exemplo. Durante todo o ano, idosos deambulam pelas ruas sem destino, esfaimados de comida e de afectos, sem tecto para acalmar as mágoas e esquecer o frio , completamente ostracizados pela grande maioria da populaça e ignorados pelas entidades que podem efectivamente fazer alguma coisa em prol destas pessoas e depois nesse dia, aleluia, o sentimento está no ar cheio de pós de perlimpimpim, com iniciativas vindas de todo o lado, bailaricos e cantorias ,comes e bebes e um sem fim de promessas no sentido de melhorar a qualidade de vida desta gente que tem estória.Já para não falar da imensidão de rostos tristes e sem vida que definham em lares ilegais e não só que proliferam como cogumelos  com a conivência das entidades “competentes”.
Mas será que a existência de cada um de nós se condensa num só dia? Por ano, claro está…bom, mas é assim, ainda bem que existe este dia, afinal é sempre bom podermos fazer uma catarse, pontualmente para podermos continuar a existir até ao ano seguinte!
Bom mas já chega de mordacidades! Porque um mundo equitativo jamais sairá da esfera da utopia e portanto todas as iniciativas que visem  alienar um sem fim de pessoas com o objectivo de lhes toldar os olhos para que as lágrimas não fluam, já não é nada mau!

Carmo Bernardo

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