quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Pensamento inconsequente


Por vezes não contemplo a tristeza dos outros quando se abeiram de mim e os inundo de constatações.
A evidência é por demais intrusiva e eu persisto na mágoa, que lanço em farpas directamente para o coração de quem me é querido.
Todo o meu ser  transborda de emotividade e tenho uma dificuldade intrínseca de racionalizar determinadas situações.
Porquê esta tendência quase doentia de escolher sempre os caminhos escusos em detrimento dos outros que calmos e verdejantes me aguardam para me oferecerem colo?
Porquê sempre estas interrogações que me dilaceram o peito e me tornam só?
Porquê esta consciência tão profunda daquilo que me rodeia, se a única dádiva que daí advém é a incomensurável súcia de fantasmas que despem a minha alma quando as cinzas da noite cobrem o meu corpo extenuado?
Apetece-me nascer de novo, recuperar o sorriso e os sonhos meninos que pululavam felizes no meu ventre sedento devida e que um dia sem dar por isso partiram de mim ,entorpecidos pela minha ausência.
Gradualmente lapido as mazelas acumuladas ao longo do meu percurso, edifico sonhos. Eclodem ao longo do meu peito pequenas pétalas de esperança que timidamente ganham forma mas que acabam por retrair-se na inópia do meu viver. A loucura é uma bebida tépida que bebo sofregamente para apaziguar esta triste realidade. Viver é por vezes deplorável, quem me dera ter uma zarabatana para abater as bestas que se atravessam no meu caminho. Preciso da ductilidade de um olhar que  abrace os meus momentos de insanidade. Estou rodeada de gente acéfala e contudo caminho teimosamente por entre os escombros,trucidando com as minhas certezas resquícios de noites mal dormidas. Porém, há um lugar inócuo onde posso aconchegar-me para adormecer os meus cansaços: a presença constante do rosto da minha filha Andreia, que me ama incondicionalmente,não obstante as minhas imperfeições.
E ainda que nesta fase de escuridão existencial as lágrimas não lavem a tristeza, atempadamente rejubilo porque sei que o sol inundará a minha alma de calor e calará as minhas mágoas.



Carmo Bernardo

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