quarta-feira, 14 de agosto de 2019

A minha memória não tem grilhões….respira!




A escrita nem sempre funciona como lenitivo, muitas das vezes afigura-se-nos como um canal regressivo em busca de momentos dolorosos, para corporizar as lágrimas.
Houve um tempo em que acreditava que quando crescesse, seria aquilo que quisesse. Gostava de subir para cima do telhado da minha casa, sem que a minha mãe desconfiasse sequer (ainda hoje não sabe que o fazia) e imaginar o meu futuro, enquanto de sorriso rasgado contemplava aquele céu estrelado, meu eterno confidente e testemunha atenta do meu percurso de vida.
Devia ter uns treze anos e imbuída de sonhos, apanágio de almas curiosas tricotava planos em que saía sempre realizada. Planos á medida de um ser de treze anos, é certo, mas saía sempre vitoriosa, dentro da esfera da imaginação. Na escola a professora de geografia perguntou um dia a toda a turma que profissão desejaríamos abraçar e quando chegou a minha vez de responder, não hesitei: astrónoma, disse eu com uma alegria imensa estampada no rosto. A este meu desejo subjazia a afinidade que sentia com o céu estrelado aquando as minhas incursões até ao telhado da minha casa.
Mas este meu desejo não desenvolveu asas para rasgar o céu das possibilidades e perdeu-se algures deforma irreversível.
E mais desejos vieram e também eles não voaram…e comecei a acreditar que as minhas asas eram inúteis…
E recolhi-me por opção na minha redoma de chumbo, pesada e inerte e que impossibilitava, o contacto com os outros. Durante muito tempo mitiguei a fome de vida com doses exorbitantes de improficuidades e abandonei-me aos ventos infecundados.
Quebrei essa letargia, quando soube que carregava no ventre um serzinho especial, a minha filha. Foram tempos tramados aqueles, repletos de ansiedades e  receios , mas saber que a minha inaptidão tinha sido contrariada e que gerava uma vida era algo tão extraordinário, que nem sequer cabia no meu peito outrora sonhador.
E ainda que recorra de toda a poesia que flui do meu peito em cataratas de azul, jamais conseguirei transmitir a sensação maravilhosa ao aconchegar pela primeira vez nos meus braços trémulos esse serzinho lindo.
E cresci de novo para a vida, acalentei novos sonhos , a minha alma voltou a sorrir.
Já passou algum tempo, é certo, mas continuo a crescer(me) todos os dias, observando de perto e de forma incondicional  o crescimento desse ser único que um dia habitou o meu ventre e agora habita a minha vida.
E apesar de já não subir para o telhado, continuo a contemplar o céu estrelado sentada no chão da minha varanda,esse céu confidente e testemunha atenta do meu percurso de vida.

Carmo Bernardo

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