“INCUBADORA DE NÉSCIOS”
A sociedade, na sua vertente mais linear, enfatiza as discrepâncias, como se fossem incontornáveis.
Subvertem-se os valores primordiais, idolatram-se políticos bojudamente interesseiros e não interessados, fazem-se experiências e anulam-se as vontades e as competências naturais dos que ainda não padecem de conformismo crónico.
Investe-se em programas estéreis, de mera conveniência política e financeira, com formações aqui e ali para entreter o povinho pouco exigente.
Congelam-se ideias benignas e funcionais, só porque sim, dão trabalho e poderiam pôr em causa certos e determinados benefícios que só se conseguem se o povinho por iletrado. Onde estão os homens bons, não obstantes todas as suas considerações políticas e os outros cuja fé na política é apenas uma formalidade adquirida pouco a pouco? Onde estão esses homens que constroem a vontade mesmo quando o terreno é infértil? Que não se coíbem de esmurrar a mesa para validar as ideias que visam a dignidade do ser humano em todas as vertentes? Onde estão esses homens impolutos, que transpõem barreiras e fogem a sete pés do politicamente correcto? Onde estão essas criaturas abnegadas que fazem da verdade o seu porta estandarte?
Os imbecis auto proclamam-se crachás de uma sociedade esfarrapada e agarram-se como lapas imundas aos restos de tecido que os oportunistas lhes facultam com condescendência previamente estudada.
Porque tudo é milimetricamente analisado para ter impacto, para produzir som numa sociedade de surdos, em que a imagem se sobrepõe pornograficamente ás ideias.
Criam-se cavidades estomacais, para poder abrigar litros e litros de fluido verbal infecto.
As pessoas padecem maioritariamente de um qualquer síndroma clorofórmico, apresentando-se num estado praticamente comatoso, são meros germes à volta de uma côdea ressequida pela inércia.
Recorrem de amor empacotado e etiquetado para promover a solidariedade, sempre visando o retorno e sobretudo o protagonismo, porque isto de ser bom e fazer o bem tem muito que se lhe diga. E esquecem-se que a morte quando nasce, é para todos!
Tudo se banaliza:a morte, a vida, os sentimentos(…)bem apertadinhos cabem todos numa selfie, com rasgados sorrisos imbuídos por uma vaidade indevida.
E sinto uma permanente vergonha alheia (porque para mim, este mundo é decididamente um lugar fodido para se viver).
Há uma gritante falta de vontade para resolver questões prementes.
Contudo dependemos de cavalgaduras, ventres túrgidos pela inépcia, autênticos acumuladores compulsivos de dejectos verbais.
Sinto um desconforto desmesurável, quase a roçar a aversão, perante pessoas que fazem da abjecção um modo de vida.
O conhecimento devia ser uma bênção, mas deixa inevitavelmente um sabor agridoce. Quanto mais conhecimento adquiro sobre determinados assuntos, menor se torna a minha crença face ao ser humano (que de resto nunca foi muito substancial).
Depois temos sempre algumas alternativas, de acordo com o carácter(ou falta dele).Ou seguimos o rebanho, neste pasto ensolarado à beira mar plantado, comendo restinhos de coisa nenhuma ,lambendo os cús de quem detém poder ou então somos contestatários. Mas para ser contestatário, não pode faltar comida na mesa nem dinheiro para pagar as contas, porque ser um contestatário pobre e de barriga vazia não suscita credibilidade.
Ora porra!
Carmo Bernardo
quarta-feira, 14 de agosto de 2019
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