quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Percurso errante

Aqui vou eu a caminho do centro de emprego para uma sessão (des)informativa. Lá chegada, dirijo-me ao segurança, que de acordo com o observado, é a pessoa mais diligente que se encontra a trabalhar naquela instituição. Entrego-lhe folha que me tinha sido facultada atempadamente, mais precisamente um mês e meio, onde consta o nome e o propósito da minha ida. O segurança pede que aguarde. Reparo que a sala está repleta de pessoas, meus colegas involuntários nesta odisseia.. Decorreu algum tempo até o segurança iniciar a chamada. João…Francisco…..Mª Carmo(…)ficamos todos de pé ,junto ao incansável  self made man.
Finalmente, todos uns atrás dos outros como carneirinhos obedientes a caminho do matadouro.,lá seguimos,descendo as escadas directamente para uma sala inundada de sol (pelo menos isso!).Não pude deixar de rir, mas ao mesmo tempo afloraram-me as lágrimas aos olhos cansados de tão zelosos procedimentos!?Senti-me um mero número, uma pessoa qualquer, descaracterizada pelo funcionamento quase surreal deste organismo que não se compadece com as fragilidades de cada um.
Eis-nos a todos, sentadinhos numa sala a olhar para o vazio, cada qual com a sua história de vida.
O meu olhar inquieto e curioso viajou de rosto em rosto tentando perscrutar um pouco da história de cada um.
Aparece um senhor, que percebi seria o nosso orientador .Despachado, com algum sentido de humor.
Quis saber o que cada um estava ali a fazer, o que procurava.
E consoante o nome era dito, lá iam desfilando rosários, mostrando espectativas. Quando chegou a minha vez:” olá boa tarde, sou a Carmo, tenho 48 anos e o 12º ano  e estar aqui , é para mim estranho,pensei que ia ter informação individualizada,e não inserida neste contexto.Mas  adiante.Pretendo adquirir competências que me permitam fazer face ás exigências laborais, de preferência algo relacionado com a agricultura.
-“Sim senhora,pois bem cursos temos apenas um em mesa,mecânico de carroçarias.Depois temos a vida activa que consiste nuns módulos, em que se aprende qualquer coisa sobre determinadas profissões, mas que não é certificado.
Ah ok,estou a perceber,é apenas uma  medida para entreter o people,uma forma escamoteada de atirar areia para os olhinhos!!
Tanto um como outro -continuou o senhor amavelmente para me esclarecer,garante subsídio de transporte, bem como de alimentação.”
-Pois ,é mesmo isso que estou a precisar, pensei eu. Nesta altura da minha vida em que atingi esta provecta idade e já acuso laivos de senilidade,preciso mesmo é de estar entretida!!?? A minha odisseia naquele ambiente surreal durou uma hora mais ou menos.
A minha ida ali não foi propriamente em vão,fiquei a saber as idades das pessoas que estavam na sala,bem como as suas habilitações literárias.Valha-nos isso.De resto saí informada de coisa nenhuma.
Confesso que me senti completamente depauperada e de repente senti-me cair num abismo.
Não quero isto para mim, parece que não é este o meu tempo.
Abomino toda e qualquer situação em que o meu ser se contorce de indignação por factores exteriores à minha vontade,porque me sinto impotente .
Não deixo de pensar em toda a gente que se insurge contra isto e aquilo sem nunca terem tido necessidade de andar nestes meandros.
Aborrece-me de morte(por isso morro todos dias um pouco),ter que lidar com teóricos, gente bacoca e convencida que detém a sabedoria eterna.
Blá….blá….já não tenho espaço para compactar mais idiotices vindas de fora.
Não tenho efectivamente paciência para lidar com a generalidade das pessoas e ponto. Neste cataclísmico mundo do qual faço parte, é um direito que me reservo.Um reduto onde vive a minha dignidade e esperança.
Voilá , mais um episódio disperso, desta minha caminhada errante pelos atalhos da vida.

Carmo Bernardo

.

Nenhum comentário: