Olá meu filho, a mamã aproveita o silêncio que a noite me oferece de forma abnegada , para te escrever esta carta.Lembras-te meu filho quando chegavas a casa depois de mais um dia de aulas e corrias para os meus braço soluçando e dizias"mamã, mamã hoje na escola um menino roubou-me o lanche e chamou-me menino da mamã"e depois conversávamos de forma terna enquanto te afagava os cabelos e acalmava a tua tristeza de menino.E daquelas vezes em que ia contigo ao pediatra,preocupadíssima quando afinal tudo não passava de uma ligeira febre consequência dos teus dentinhos a romper.Lembras-te meu filho das vezes que fiquei acordada, tentando acalmar os teus medos quando apagava a luz do teu quarto?E as histórias com um final sempre feliz que te faziam sorrir e dizer"só mais uma, mamã".Uma vez levei-te ao Jardim Zoológico ,devias ter três(3) anos de idade apenas, para que visses os animais que até então apenas tinhas visto na televisão e pelos quais sentias um fascínio contagiante.E o teu sorriso iluminava a minha vida, eras a minha vida. Quando foste para o liceu, partilhavas sempre comigo os acontecimentos diários e eu apesar de muitas vezes estar extenuada por mais um dia de trabalho que me permitisse dar-te uma boa educação académica, encolhia o cansaço num compartimento estanque e ouvia deliciada os teus relatos.Quando foste para a faculdade festejamos efusivamente :estendemos uma toalha na relva do nosso jardim e brindamos com um chá gelado. Depois como a noite estava lindíssima, ficamos por ali algum tempo e enquanto comíamos bolachas de aveia,as tua preferidas , escutava os teus projectos futuros,as tuas ideias e sonhos e acabamos por adormecer, confortados com o brilho das estrelas. Nessa altura ainda vivias comigo, e eu continuava a fazer alguns sacrifícios para que pudesses obter a licenciatura e depois o mestrado e a seguir o doutoramento.Nunca tiveste que te preocupar com nada a não ser estudar.E quando finalmente começaste a exercer medicina pude finalmente cuidar de mim.Por pouco tempo porque a seguir apresentaste-me a pessoa com quem ainda vives e depois pediste para tomar conta dos teus filhos, enquanto te ausentavas com a tua mulher para que pudessem libertar-se do cansaço acumulado durante uma semana de trabalho intensivo.Apesar de precisar de tempo para mim,cuidava deles com imenso desvelo, apanágio de quem ama os que são próximos e tem prazer em cuidar.E sem dar por isso, o tempo fixou a sua atenção em mim e tornou-me mais frágil, já não conseguia fazer uso de todas as minhas faculdades físicas e por isso passava imenso tempo deitada na cama a descansar. A minha memória também não era a mesma e muitas vezes esquecia-me de factos importantes.Um dia , convidaste-me para ir contigo visitar uma pessoa , uma pessoa amiga, disseste tu.E não estranhei, sabes que sempre confiei em ti. Nem sequer estranhei quando te vi carregar uma ou duas malas para o carro. Quando entramos naquele casarão imenso também não estranhei, apesar de ver muita gente sentada, em frente de uma televisão desligada.Disseste que já vinhas, tinhas que falar com uma pessoa e vi-te entrar numa sala com uma senhora bem vestida e de sorriso fácil.Comecei a sentir-me confusa, aquilo não estava a fazer sentido nenhum para mim.Algumas das pessoas que por ali deambulavam, todas de olhar triste, abeiravam-se de mim, mas nenhuma me dirigiu a palavra;umas riam muito alto, outras choravam e outras apenas olhavam, com aquele olhar indistinto característico de pessoas com o espírito completamente ausente.Quando saíste da sala , ao fim de algum tempo que me pareceu uma eternidade, vieste ter comigo, deste-me um abraço rápido e disseste que eu ia ficar, que a partir daquele momento estaria mais segura no meio daquelas pessoas que iam cuidar de mim.Fiquei a olhar para ti, enquanto num andar apressado te dirigias para o carro.Naquele instante a minha alma regrediu até ao tempo em que eras criança e corrias para os meus braços após um dia de escola e o meu coração começou abater tão intensamente que por breves momentos pensei estar a ter um pesadelo.Ainda me vieste visitar algumas vezes, sempre muito apressado porque o cargo que ocupavas na clínica não te permitia ausências demoradas.Pelo menos era o que me dizias.E nunca ao fim de semana, precisavas desses dias para passeares com a tua família.Depois passado algum tempo, deixaste de vir, nunca mais soube nada de ti.Apesar de saber que o meu tempo está a chegar ao fim,entristece-me pensar se estarás presente quando eu partir.Mas o que me magoa de forma profunda é saber que nunca mais virás a correr para os meus braços e que neste momento sou eu que preciso de correr para os teus, porque me sinto só!
Carmo Bernardo

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