quarta-feira, 14 de agosto de 2019

minudências

Gosto de observar.Não no intuito de fazer comentários inapropriados, apenas pelo prazer de observar, tentar perscrutar para além da aparência.É uma característica que faz parte da minha natureza , um exercício que faço e que me faculta ideias para escrever.
Hoje fui ao café.Um café qualquer, porque não tenho propensão para a ritualidade. Abstraída com a chávena numa mão e o cigarro noutra, fui olhando ao meu redor e os meus olhos fizeram algumas pausas, mesa a mesa para tentar captar alguma vida nas pessoas.
Numa das mesas estava um casal a devorar bolos e galões, como se o mundo fosse acabar.Não falavam sequer nos intervalos, penso até que nem conseguiam respirar.Quando acabaram de devorar aquele suculento repasto cada um pegou numa revista  quem sabe à procura de notícias ou imagens que ajudassem a digerir a comida e assim facultar um digestão serena.
Noutra mesa estava uma criancinha entretida a comer um bolo cheio de creme e um sumo....hum que refeição tão salutar para começar o dia....talvez  com a continuidade esta criança futuro homem, tenha neurónios privilegiados, adaptáveis e com propriedades balsâmicas para fazer face às suas  necessidades mais prementes.
Na televisão estava a dar um programa qualquer daqueles para entreter, como muita cor e conversa, afinal todos precisamos de algo psicadélico para recorrermos quando as mentes exauridas se estendem até ao esquecimento.... e não têm forças para se erguerem.
Perto duma das  janela estava um velho.Barba por fazer, completamente desgrenhada e um sobretudo quase desfeito, talvez pelo uso persistente ou quem sabe o resultado de uma busca pelos contentores.
Este velho olhava absorto pela janela, enquanto o seu café fumegava.Que estava ele a ver?Do outro lado da janela não havia rigorosamente nada a não ser uma estrada por onde pontualmente passavam alguns carros.
Apeteceu-me pensar que ele não olhava para lado nenhum.Tentava apenas aquecer a alma com o café e disfarçar a tristeza de estar só.
Por momentos senti vontade de ir ter com ele, pedir licença para me sentar .
Talvez me falasse da sua vida, dos seus medos e angustias, das suas necessidades e sonhos desfeitos.
Ou então olharia para mim e de forma displicente dir-me-ia apenas que não me dava autorização para sentar-me junto dele porque não me conhecia.Não sei, mas de repente ele levantou-se e penosamente saiu do café .Ainda acompanhei alguns segundos a sua figura, enquanto caminhava dali para fora....curvada e sem vida.
Aproveitei também para sair dali, afinal já tinha algo para contar, fruto da minha observação e honestamente já me estava a incomodar o barulho ensurdecedor da televisão, que de resto ninguém estava a ver!

Carmo Bernardo

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