minudências
Gosto de observar.Não no intuito de fazer comentários inapropriados, apenas pelo prazer de observar, tentar perscrutar para além da aparência.É uma característica que faz parte da minha natureza , um exercício que faço e que me faculta ideias para escrever.
Hoje fui ao café.Um café qualquer, porque não tenho propensão para a ritualidade. Abstraída com a chávena numa mão e o cigarro noutra, fui olhando ao meu redor e os meus olhos fizeram algumas pausas, mesa a mesa para tentar captar alguma vida nas pessoas.
Numa das mesas estava um casal a devorar bolos e galões, como se o mundo fosse acabar.Não falavam sequer nos intervalos, penso até que nem conseguiam respirar.Quando acabaram de devorar aquele suculento repasto cada um pegou numa revista quem sabe à procura de notícias ou imagens que ajudassem a digerir a comida e assim facultar um digestão serena.
Noutra mesa estava uma criancinha entretida a comer um bolo cheio de creme e um sumo....hum que refeição tão salutar para começar o dia....talvez com a continuidade esta criança futuro homem, tenha neurónios privilegiados, adaptáveis e com propriedades balsâmicas para fazer face às suas necessidades mais prementes.
Na televisão estava a dar um programa qualquer daqueles para entreter, como muita cor e conversa, afinal todos precisamos de algo psicadélico para recorrermos quando as mentes exauridas se estendem até ao esquecimento.... e não têm forças para se erguerem.
Perto duma das janela estava um velho.Barba por fazer, completamente desgrenhada e um sobretudo quase desfeito, talvez pelo uso persistente ou quem sabe o resultado de uma busca pelos contentores.
Este velho olhava absorto pela janela, enquanto o seu café fumegava.Que estava ele a ver?Do outro lado da janela não havia rigorosamente nada a não ser uma estrada por onde pontualmente passavam alguns carros.
Apeteceu-me pensar que ele não olhava para lado nenhum.Tentava apenas aquecer a alma com o café e disfarçar a tristeza de estar só.
Por momentos senti vontade de ir ter com ele, pedir licença para me sentar .
Talvez me falasse da sua vida, dos seus medos e angustias, das suas necessidades e sonhos desfeitos.
Ou então olharia para mim e de forma displicente dir-me-ia apenas que não me dava autorização para sentar-me junto dele porque não me conhecia.Não sei, mas de repente ele levantou-se e penosamente saiu do café .Ainda acompanhei alguns segundos a sua figura, enquanto caminhava dali para fora....curvada e sem vida.
Aproveitei também para sair dali, afinal já tinha algo para contar, fruto da minha observação e honestamente já me estava a incomodar o barulho ensurdecedor da televisão, que de resto ninguém estava a ver!
Carmo Bernardo
Hoje fui ao café.Um café qualquer, porque não tenho propensão para a ritualidade. Abstraída com a chávena numa mão e o cigarro noutra, fui olhando ao meu redor e os meus olhos fizeram algumas pausas, mesa a mesa para tentar captar alguma vida nas pessoas.
Numa das mesas estava um casal a devorar bolos e galões, como se o mundo fosse acabar.Não falavam sequer nos intervalos, penso até que nem conseguiam respirar.Quando acabaram de devorar aquele suculento repasto cada um pegou numa revista quem sabe à procura de notícias ou imagens que ajudassem a digerir a comida e assim facultar um digestão serena.
Noutra mesa estava uma criancinha entretida a comer um bolo cheio de creme e um sumo....hum que refeição tão salutar para começar o dia....talvez com a continuidade esta criança futuro homem, tenha neurónios privilegiados, adaptáveis e com propriedades balsâmicas para fazer face às suas necessidades mais prementes.
Na televisão estava a dar um programa qualquer daqueles para entreter, como muita cor e conversa, afinal todos precisamos de algo psicadélico para recorrermos quando as mentes exauridas se estendem até ao esquecimento.... e não têm forças para se erguerem.
Perto duma das janela estava um velho.Barba por fazer, completamente desgrenhada e um sobretudo quase desfeito, talvez pelo uso persistente ou quem sabe o resultado de uma busca pelos contentores.
Este velho olhava absorto pela janela, enquanto o seu café fumegava.Que estava ele a ver?Do outro lado da janela não havia rigorosamente nada a não ser uma estrada por onde pontualmente passavam alguns carros.
Apeteceu-me pensar que ele não olhava para lado nenhum.Tentava apenas aquecer a alma com o café e disfarçar a tristeza de estar só.
Por momentos senti vontade de ir ter com ele, pedir licença para me sentar .
Talvez me falasse da sua vida, dos seus medos e angustias, das suas necessidades e sonhos desfeitos.
Ou então olharia para mim e de forma displicente dir-me-ia apenas que não me dava autorização para sentar-me junto dele porque não me conhecia.Não sei, mas de repente ele levantou-se e penosamente saiu do café .Ainda acompanhei alguns segundos a sua figura, enquanto caminhava dali para fora....curvada e sem vida.
Aproveitei também para sair dali, afinal já tinha algo para contar, fruto da minha observação e honestamente já me estava a incomodar o barulho ensurdecedor da televisão, que de resto ninguém estava a ver!
Carmo Bernardo

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