Descoroçoamento (s)
Nada nesta vida é garantido. Se respiro agora enquanto escrevo , é porque o meu coração ainda não se cansou de mim, mas daqui a algum tempo, sabe-se lá, pode chegar á conclusão que o meu peito já não lhe serve de abrigo e num rasgo de sensatez abrir de par em par as portas do silêncio perpétuo.
Os meus olhos sentem-se velhos; já não conseguem procurar da mesma forma as cores que habitam ao meu redor, e sobretudo ,já não têm paciência para brincar com os raios de luz que dantes escorriam pelos meus dedos ,como crianças traquinas.
Cansa-se-me a vontade e o desamor instala-se.
Morro-me a cada dia que passa, conscientemente.
E se empresto alguma poesia ás palavras, não é porque queira impregná-las de beleza , mas sim, porque desse modo, a mágoa provoca menos danos e por algum tempo ,consigo direcionar a minha letargia para um limbo emocional.
Os dias são todos opacos, não recebem a luz do sol e definham em ambiguidades.
Tic tac tic tac….impassivelmente , o relógio conducente da minha vida , perscrute o caminho por mim percorrido.
Na maior parte das vezes não me apetece ser cordial, para isso teria que ser fementida, se bem que muitas vezes recorro a frases destituídas de emoção.
O meu desejo, amiudadamente, é aniquilar aquelas alminhas bigúmeas, que subtilmente esventram os sonhos alheios, com doses controladas de sorrisos.
Mas claro, vivo num mundo de contradições, de desvios intencionais e se por um lado abomino a generalidade das pessoas, por outro há em mim uma curiosidade quase naïf de encontrar pessoas que primem pela diferença.
Gosto da nobreza de carácter, da força que vem das certezas e das convicções. Gosto de pessoas genuínas. Pessoas que transformam os medos em dádivas e que crescem para o mundo. Gosto de pessoas loucas, que vislumbram no nada inúmeros caleidoscópios.
Cansam-me as pessoas trajadas ostencivamente de boas intenções, normalmente subjaz qualquer coisa de fanático, mais rídiculo que assustador, no meu ponto de vista.
Cansam-me as pessoas cuja teoria suplanta em quantidades desmesuradas a realidade dos dias que correm, imperturbáveis a todos e quasquer condicionamentos externos.
Cansam-me as pessoas que cujas opiniões convergem para um funil , descambando inexoravelmente para um lamaçal de sofrimentos alheios.
Cansam-me as pessoas tacanhas , que com as suas asas de plástico cruzam os céus da ignomínia, defecando palavras vãs para a imensidão de almas alcatroadas.
Cansam-me as pessoas obtusamente convictas das suas verdadezinhas humanitárias, sempre com opinião formada em relação aos “pobrezinhos” e etnias minoritárias, tomando-lhes as dores, teoricamente aconchegando-os no regaço, sabendo eu, por experiência própria que muitas destas alminhas caridosas não passam de tartuffes.
Cansam-me as pessoas excessivamente sorridentes , penso sempre se não terão por ventura alguma espécie de tumefação purulenta em lugar do coração, que lhes tolde os músculos faciais e impeça de variar a expressividade no rosto.
Justiça…ok…é o quê??Sempre entendi a justiça como elemento fulcral, numa engrenagem complexa , indissociável com a equidade, uma parceria forte e fecunda, no entanto atrevo-me a dizer que dado o que me é dado a observar, tenho que substitui-la por iniquidade. A justiça, afinal, sendo que tem vontade própria e cavalga à solta e sem freio ,decidiu eximir-se da sua real função e fazer um pacto sem termo, com a iniquidade. E não é que ganha força motriz neste mundo de estrábicos emocionais?
Por todo o lado e estrategicamente posicionados, intelectualóides opinam sobre os mais distintos assuntos,com aquelas carinhas indistintas e as palavrinhas serpenteadas , que no cômputo geral não querem dizer absolutamente nada,mas que são escutadas atentamente por outros tantos intelectualóides, que com ar de entendidos anuem com as cabecinhas reluzentes de tanta pertinácia.
Inventem-se novas pessoas,reinventem-se outras tantas e tenho a certeza que um dia,viver será uma dádiva e não um quase permanente martírio.
Carmo Bernardo
quarta-feira, 14 de agosto de 2019
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