sexta-feira, 1 de março de 2019

A mulher que não podia gritar


Nada sei do passado desta mulher pequenina, completamente deformada  e com uma fome voraz. Sei que grita noite e dia, sobretudo à noite quando os fantasmas inundam o quarto .
“Tenho fome, tenho sede, quero vestir-me….”um rol interminável de exigências…que nunca são atendidas por quem cuida dela. Afinal a criatura é uma jane doe, ninguém quer saber dela. Limitam-se a mudar a fralda, a dar de comer, banho e todas as necessidades básicas, tudo a contragosto, afinal como disse é apenas mais uma jane doe a encher os lares ilegais que proliferam por aí….
Aquele corpo minúsculo não sabe o que são afectos, ninguém lhos dá, o importante é assegurar que não morra por negligência, não vá a polícia intervir e fechar o lar…por isso há que enfardá-la de comida, pelo menos o corpo vai resistindo.
Mas esta criatura de 84 anos, causa desconforto a toda a gente…a quem cuida dela, aos colegas de infortúnio que ali foram parar pelas razões mais diversas, mas cujo objectivo é invariavelmente o  mesmo, delegar nos outros as responsabilidades que deviam ser inerentes à família de quem eles cuidaram .
E porque esta criatura causa desconforto, sofre na alma e no corpo represálias, que raiam a crueldade.
Um destes dias e porque durante a noite não “permitiu” que as pessoas descansassem, foi posta na rua, tendo como companhia um frio não diria lancinante, mas que quase a enregelou.
A senhora gritava que tinha frio, mas os carrascos tiveram um surto de surdez e ignoraram a pobre criatura. Cenário dantesco!!Um vento descomunal e a mulher sentada numa cadeira de rodas, isolada de todos, tendo apenas como companhia umas quantas galinhas ,indolentes criaturas, que bicavam a terra à procura de comida. E a vida corria lá fora….indiferente aos gritos da mulher.
E ainda que os gritos desta desvalida ecoem por todo o lado, eis que jaz sob uma lápide de indiferença , sendo que a única companhia é o abraço perpétuo da solidão!

Carmo Bernardo