Fazedores de coisa nenhuma
Rostos macilentos deambulam pelos corredores , desgastados e entorpecidos pelos gritos que ecoam pela casa. Transfigurados, afiguram-se-me como meros fantasmas a viver dos restos de saliva e excrementos. Arrastam as mágoas juntamente com os corpos doridos de noites mal dormidas e falta de amor. As suas mãos têm os sinais irreversíveis do tempo, escanzeladas e feridas, esculpidas pelas artroses e percorrem as minhas, que agarram sofregamente para mitigar a necessidade de contacto. Olho para estas pessoas ,tratadas como vermes, despojadas da sua dignidade ,que existem apenas e tão somente para garantir uma conta choruda a gente sem escrúpulos. Cada um destes seres tem um passado agora adormecido pela quantidade de medicação administrada, para que possam "dar noites sossegadas" a quem toma conta deles. Retraem-se ao toque, porque já carregam no corpo nódoas negras infligidas por mãos que um dia também vão ser cadavéricas. Alguns, duvido que sejam loucos, penso que talvez tenham encontrado uma forma menos dolorosa de enfrentar o dia a dia até que chegue a carruagem da morte para os transportar para uma dimensão sem mágoa. O senhor Francisco, sussurra-me de forma quase inaudível"a Maria do Carmo é o meu anjo da guarda".Até para dizer o que lhe vai na alma, di-lo sussurrando, temendo que outra pessoa para além de mim oiça o que me diz. Estes seres são de uma subserviência tocante, que me deixa profundamente indignada, porque sei que é por uma questão de sobrevivência. De vez em quando oiço-os lisonjear os seus carrascos, na tentativa vã de deixarem de ser massacrados. As pessoas não têm vontade própria, foi-lhes negada ao entrarem neste armazém lúgubre de carne quase putrefacta. As moscas banqueteiam-se com as mazelas dos que não se podem mexer. Rapinam as viscosidades que não se conseguem ocultar com o lençol e num frenesim quase demoníaco, soltam zumbidos estridentes que trespassam as portas e janelas. Há um tempo para ficar e outro para partir. Fico-me enquanto as palavras partem rumo a um naufrágio de emoções. As minhas emoções.
Carmo Bernardo
quarta-feira, 14 de agosto de 2019
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