De fel e de mel todos temos um pouco
De fel e de mel todos temos um pouco
Neste afã circense pelo protagonismo,procuro alguma coerência, recuso-me pactuar com as boçalidades tão óbvias e tão naturalmente aceites pela fatia maior deste bolo sem creme que é a vida… Há uns tempos atrás uma pessoa que de certa forma fez parte do meu passado, disse-me que precisava de conversar com pessoas inteligentes, sendo que depreendi que isso não sucedia com o circulo de pessoas com quem se dava. O que não deixa de ser estranho, afinal nós escolhemos as pessoas que fazem parte da nossa vida, interessante sou não isso depende daquilo pelo qual nos sentimos cativados.
O meu caminho tem sido sinuoso, permanentemente prenhe de percalços. Olho para tudo o que me rodeia sempre e inevitavelmente com alguma desconfiança, sobretudo quando se me afigura duvidoso e lamento muito, mas as pessoas no cômputo geral, oferecem-me sempre razões para cultivara descrença.
Com o tempo adquiri uma capacidade quase excretória, para banir as incongruências e a maldade inata em certas pessoas, que vestidas a rigor com paninhos sedosos e a tresandar a hipocrisia,distribuem boas intenções e sorrisos misturados numa papa pestilenta.
Quando eu tinha 16 anos, costumava falar com o padre da minha paróquia, sobre assuntos interessantes, pelo menos naquela altura assim pensava. Ali ele não era padre, era um amigo mais velho, com quem me sentia bem a conversar. Um dia estava ele a lavar o carro, enquanto conversávamos e eis que se abeira de nós um mendigo a pedir algo para comer. Tirei logo a carteira para lhe dar o pouco dinheiro de que dispunha para que a criatura pudesse comprar algo com que enganar a fome e o padre chamou-me á parte e disse: Carmo não lhe dês dinheiro ,está ali pão duro na sacristia vou buscar para lhe dar. Sei que naquela altura algo em mim mudou…então mas o padre achava por acaso que o mendigo não merecia ir comprar algo para comer e tinha que se contentar com pão duro, prestes a ir para o lixo? Confesso que fiquei decepcionada,a sério e manifestei isso ao padre. Depois disso vi-o apenas mais duas ou três vezes. Já não tinha vontade de conversar com ele. Sei que actualmente desempenha um cargo importante na esfera religiosa….será que ao falar dos pobrezinhos, enquanto evoca a palavra de Deus fá-lo tendo presente que basta pão duro para mitigar a fome a um desvalido e continuar em paz com Deus??
Muitas vezes torna-se penoso para mim descarnar tão profundamente as atitudes dos outros, mas faço-o também em relação a mim, talvez por isso não me sinta tão culpada.
Que posso fazer? Não fui formatada, atiraram-me ao mundo ainda como um pedaço de barro e tenho-me moldado de acordo com aquilo em que acredito, com muitas imperfeições é certo, mas de forma consciente. Apesar de todos os pedacinhos que por vezes não encaixam em lado algum, nesta mente curiosa e insatisfeita, não retiro absolutamente nada, porque tudo faz parte de mim, desta pessoa que sou e em quem acredito.
Carmo Bernardo
Neste afã circense pelo protagonismo,procuro alguma coerência, recuso-me pactuar com as boçalidades tão óbvias e tão naturalmente aceites pela fatia maior deste bolo sem creme que é a vida… Há uns tempos atrás uma pessoa que de certa forma fez parte do meu passado, disse-me que precisava de conversar com pessoas inteligentes, sendo que depreendi que isso não sucedia com o circulo de pessoas com quem se dava. O que não deixa de ser estranho, afinal nós escolhemos as pessoas que fazem parte da nossa vida, interessante sou não isso depende daquilo pelo qual nos sentimos cativados.
O meu caminho tem sido sinuoso, permanentemente prenhe de percalços. Olho para tudo o que me rodeia sempre e inevitavelmente com alguma desconfiança, sobretudo quando se me afigura duvidoso e lamento muito, mas as pessoas no cômputo geral, oferecem-me sempre razões para cultivara descrença.
Com o tempo adquiri uma capacidade quase excretória, para banir as incongruências e a maldade inata em certas pessoas, que vestidas a rigor com paninhos sedosos e a tresandar a hipocrisia,distribuem boas intenções e sorrisos misturados numa papa pestilenta.
Quando eu tinha 16 anos, costumava falar com o padre da minha paróquia, sobre assuntos interessantes, pelo menos naquela altura assim pensava. Ali ele não era padre, era um amigo mais velho, com quem me sentia bem a conversar. Um dia estava ele a lavar o carro, enquanto conversávamos e eis que se abeira de nós um mendigo a pedir algo para comer. Tirei logo a carteira para lhe dar o pouco dinheiro de que dispunha para que a criatura pudesse comprar algo com que enganar a fome e o padre chamou-me á parte e disse: Carmo não lhe dês dinheiro ,está ali pão duro na sacristia vou buscar para lhe dar. Sei que naquela altura algo em mim mudou…então mas o padre achava por acaso que o mendigo não merecia ir comprar algo para comer e tinha que se contentar com pão duro, prestes a ir para o lixo? Confesso que fiquei decepcionada,a sério e manifestei isso ao padre. Depois disso vi-o apenas mais duas ou três vezes. Já não tinha vontade de conversar com ele. Sei que actualmente desempenha um cargo importante na esfera religiosa….será que ao falar dos pobrezinhos, enquanto evoca a palavra de Deus fá-lo tendo presente que basta pão duro para mitigar a fome a um desvalido e continuar em paz com Deus??
Muitas vezes torna-se penoso para mim descarnar tão profundamente as atitudes dos outros, mas faço-o também em relação a mim, talvez por isso não me sinta tão culpada.
Que posso fazer? Não fui formatada, atiraram-me ao mundo ainda como um pedaço de barro e tenho-me moldado de acordo com aquilo em que acredito, com muitas imperfeições é certo, mas de forma consciente. Apesar de todos os pedacinhos que por vezes não encaixam em lado algum, nesta mente curiosa e insatisfeita, não retiro absolutamente nada, porque tudo faz parte de mim, desta pessoa que sou e em quem acredito.
Carmo Bernardo

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