quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Reflexão autónoma(como aliás todas as outras)

Ontem deparei-me com uma cena surreal, numa superfície comercial, onde ,digo desde já , abomino ir, a não ser em caso de extrema necessidade. Ofuscam-me aquelas luzes irritantemente fortes, escandalosamente intromissivas,os barulhos das caixas registadoras, o ininterrupto bzzzzz, os encontros nos corredores com paragem obrigatória para debater assuntos de caracacá(…)
Ouviam-se os guinchos de uma criança e  o meu cérebro pouco ou nada tolerante com sons estereofónicos, foi acometido por uma saraivada de avisos: desliga, Carmo, não prestes atenção, aliena-te….
Mas a criança continuava a guinchar e os guinchos vinham na minha direção….cada vez mais próximos…calma Carmo, não tarda sais daqui e vais apanhar ar puro para retemperar as células cerebrais e repor o timbre original no canal auditivo, momentaneamente dilacerado.
Então sem poder evitar eis que me deparo com uma cena estapafúrdia….uma criança de cinco ou seis anos, agarrava-se tenazmente ao carrinho de compras, parado no meio do corredor enquanto o seu pai, impávido e sereno entabulava uma conversa ao telemóvel…olhava para o seu rebento, luz dos seus olhos, com ar ausente e permissivo, enquanto a criança, sei lá eu porquê, se entregava a uma guincharia animalesca e perversamente inquietante.
O pai, pouco ou nada preocupado com a atitude do seu descendente, continuava a interminável conversa no aparelhozito. Pontualmente o rapazinho erguia-se do chão empurrava o carrinho de compras, para de seguida rebolar-se no chão, qual tufo de pelos movendo-se de um lado para o outro  pela acção de um vento implacável.
Consegui, por portas e travessas preservar o meu canal auditivo e sobretudo manter calmo este meu cérebro inquieto, até sair dali ainda com aquele som estridente a martelar-me no cérebro!
No íntimo só pensava em dar umas bordoadas tanto ao pai com ao filho, por motivos diferentes, claro está.
Acredito que muitas vezes, ter sucesso como pai ou mãe, é uma incógnita, não obstante os esforços hercúleos com que se enfrenta essa demanda.
Mas também acredito que as atitudes dos filhos só são validadas com a inoperância e desapego dos pais.
Porque educar dá trabalho, exige tempo físico e mental.
Cada um tem que arvorar-se em cozinheiro educacional , conceber as suas próprias receitas consoante o apetite emocional e intelectual da criança.
Não é preciso ser doutorado ,nem recorrer á sapiência….funciona melhor, na minha opinião, quando desprendemos dos dedos doses industriais de amor.
A teoria oferecida pelos calhamaços e deglutida sofregamente pelos pretensos iluminados intelectuais, pelo menos no que diz respeito ao tema da educação, é perfeitamente dispensável.
Eventualmente serei considerada uma troglodita por pensar assim ,eheheh, uma dinossaura mor sem escrúpulos intelectuais, que devia colocar na boca um pano embebido em gasolina e ir de encontro á chama crepitante da lareira, para evitar verborreia isenta de conhecimento teórico, mas quero lá saber….afinal o meu pensamento sente continuamente o sopro da liberdade a beijar-me docemente e sem pressa…e não é alimentado, de forma alguma pela aceitação alheia…continua a viver alegremente sem isso.
Ser pai e mãe é uma aprendizagem constante, uma reciclagem permanente.
Quando nascemos somos telas em branco e pintamo-las gradualmente, durante toda a existência, escolhendo as cores que mais nos engrandecem como seres humanos. No fim todas farão parte da exposição definitiva e perpétua de Deus.
Quando somos crianças acreditamos em tudo, somos seres receptores, bebemos toda a informação que está á nossa volta, facultada pelos adultos que também já foram crianças, se bem que muitas vezes se esqueçam desse pormenor assaz importante.
Na minha singela e pueril opinião, a educação da criança depende exclusivamente dos adultos( dos afectos, dos exemplos, da aceitação, da cumplicidade…)
Uma mãe , um pai,é responsável por um filho, porque decidiu que ele nasceria para fazer parte deste mundo. Cabe-lhe a tarefa de incutir bons princípios, preparar o caminho para que depois possa caminhar sozinho á descoberta da sua identidade ,do seu lugar.
E ainda que muitos demagogos se debrucem sobre o tema, recorrendo a manuais extensíssimos e pouco substanciais, ainda que se debata o tema com os mais conceituados crânios educacionais, uma coisa é certa: cada um de nós tem que encontrar a fórmula mais correcta para educar os nossos filhos.
E a educação, no meu entender, pressupõe tentativas, sucessos e derrotas, mas sempre tudo embebido em amor e respeito.
Não há pessoas perfeitas, mas há pessoas conscientes das suas limitações, das suas lacunas, que por isso mesmo sobressaem pela diferença.
No meu mundo perfeito, as criancinhas seriam todas docemente rebeldes, criativas e bem educadas.
Os seus pais seriam pessoas fantásticas, preocupadas  em que os filhos fossem boas pessoas, íntegros, peças fundamentais neste surpreendente puzzle que é a vida.
Não existiria preconceito e portanto não haveria necessidade de criar associações e movimentos pela diferença…qual diferença porra?
Atrofiam-me todos esses movimentos em prol da defesa de se ser diferente…na raça, na doença, nos ideais(…)quando as pessoas são mentalmente sãs, nem sequer se apercebem dessas diferenças que compartimentam, restringem…
Desde sempre olhei para as pessoas com os olhos do coração e esses não pactuam com ideias estereotipadas….olham para o interior, para o repolho emocional que cresce livre dentro de cada um de nós e que vale xiliões, porque detém a capacidade da unicidade.
Não perco tempo com observações estéreis , concernentes ás diferenças dos outros…confesso que a generalidade das pessoas não me cativa, é certo.
Não por isto ou por aquilo, a maior parte das vezes é por coisa nenhuma.
E se dantes, talvez pela crença inerente aos sonhos de juventude pensava que todas as pessoas eram detentoras de um fundo bom, agora, maturando e experienciando a vida, considero que penso de forma antagónica….as pessoas , regra geral, são más….depois existem as outras…autênticos rasgos de arco íris, espalhados pelo mundo, dando um toque de humanidade a tudo o que tocam, de forma anónima ou nem por isso, mas que importa?
São os midas sentimentais, arautos da boa vontade…

Carmo Bernardo

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