Inumanidades do quotidiano
Apesar do sonho estar presente na minha vida, o pragmatismo toma proporções gigantescas, mais que não seja pela consciência que tenho de tudo e pela proximidade com a realidade diária.
Ela não falava muito, passava os dias e as noites deitada, mastigando as mágoas entre uma troca e outra de fraldas e umas colheres de papa. Diabética ,perdera uma perna e sobretudo a vontade de viver.
Contudo tinha um sentido de humor inigualável.
Fazia questão de me ouvir cantar e não obstante o meu esforço para satisfazê-la nunca me lembrava das letras. Mas isso não invalidava que me parabenizasse e pedisse para cantar mais…e eu lá trauteava uma canção conhecida ,incluindo o seu nome para que pensasse que a canção era expressamente para ela…gostava de a observar, enquanto ela me olhava de soslaio…
A senhora praticamente não recebia visitas, a não ser de um neto que pontualmente a vinha ver durante cinco minutos…após pagar a mensalidade referente ao mês.
Pouco conheço do passado da senhora, a não ser que perdera um filho,que para fugir ás dívidas optara pelo suicídio.
De quando em vez, ela chamava por ele, não sabia que tinha falecido, almas caridosas consideraram benéfico ocultar-lhe esse facto dramático….e foram essas mesmíssimas almas caridosas que adiaram a sua ida para o hospital, alegando que “tinham pena de a imaginar nos corredores, sem assistência”,mesmo sabendo que a tensão arterial estava altíssima e o coração a trabalhar de forma precária.
E foram essas mesmas almas caridosas que após algum tempo, tempo demais ,lá decidiram chamar uma ambulância para levar a frágil criatura ao hospital.
Como tantos lares ilegais, há que ocultar determinados aspectos que eventualmente possam suscitar queixas e neste caso concreto, uma divisão que para todos os efeitos não existe,mas que efectivamente tem cinco camas e claro, cinco vidas.E era nesta divisão e numa destas camas que estava a senhora.
A ordem foi dada:antes dos bombeiros chegarem, há que sentar a senhora numa cadeira de rodas e levá-la até ao salão onde estão sentados alguns utentes!E eis que sentam a senhora, praticamente desfalecida, numa cadeira de rodas!!!Talvez pelo choque ou qui çá pela incredulidade, a senhora arregala os olhos, os mesmos que me olhavam de soslaio enquanto eu lhe cantava e não mais os fechou até à chegada dos bombeiros.
Após alguns exames de rotina e tempo desperdiçado, afinal era uma senhora já com 88 anos, lá partiram para o hospital.Soube no dia seguinte que a senhora tinha falecido 3 horas após ter chegado ao hospital.
Dona Grisélia,desejo que no local onde se encontra exista alguém que lhe cante canções, à semelhança do que eu fazia sempre que me pedia. Até…
Carmo Bernardo
Ela não falava muito, passava os dias e as noites deitada, mastigando as mágoas entre uma troca e outra de fraldas e umas colheres de papa. Diabética ,perdera uma perna e sobretudo a vontade de viver.
Contudo tinha um sentido de humor inigualável.
Fazia questão de me ouvir cantar e não obstante o meu esforço para satisfazê-la nunca me lembrava das letras. Mas isso não invalidava que me parabenizasse e pedisse para cantar mais…e eu lá trauteava uma canção conhecida ,incluindo o seu nome para que pensasse que a canção era expressamente para ela…gostava de a observar, enquanto ela me olhava de soslaio…
A senhora praticamente não recebia visitas, a não ser de um neto que pontualmente a vinha ver durante cinco minutos…após pagar a mensalidade referente ao mês.
Pouco conheço do passado da senhora, a não ser que perdera um filho,que para fugir ás dívidas optara pelo suicídio.
De quando em vez, ela chamava por ele, não sabia que tinha falecido, almas caridosas consideraram benéfico ocultar-lhe esse facto dramático….e foram essas mesmíssimas almas caridosas que adiaram a sua ida para o hospital, alegando que “tinham pena de a imaginar nos corredores, sem assistência”,mesmo sabendo que a tensão arterial estava altíssima e o coração a trabalhar de forma precária.
E foram essas mesmas almas caridosas que após algum tempo, tempo demais ,lá decidiram chamar uma ambulância para levar a frágil criatura ao hospital.
Como tantos lares ilegais, há que ocultar determinados aspectos que eventualmente possam suscitar queixas e neste caso concreto, uma divisão que para todos os efeitos não existe,mas que efectivamente tem cinco camas e claro, cinco vidas.E era nesta divisão e numa destas camas que estava a senhora.
A ordem foi dada:antes dos bombeiros chegarem, há que sentar a senhora numa cadeira de rodas e levá-la até ao salão onde estão sentados alguns utentes!E eis que sentam a senhora, praticamente desfalecida, numa cadeira de rodas!!!Talvez pelo choque ou qui çá pela incredulidade, a senhora arregala os olhos, os mesmos que me olhavam de soslaio enquanto eu lhe cantava e não mais os fechou até à chegada dos bombeiros.
Após alguns exames de rotina e tempo desperdiçado, afinal era uma senhora já com 88 anos, lá partiram para o hospital.Soube no dia seguinte que a senhora tinha falecido 3 horas após ter chegado ao hospital.
Dona Grisélia,desejo que no local onde se encontra exista alguém que lhe cante canções, à semelhança do que eu fazia sempre que me pedia. Até…
Carmo Bernardo

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