quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Um país chamado Lambotice

Era uma vez.....(todas as histórias interessantes têm necessariamente que começar assim) um país chamado Lambotice. Neste país todos os seres andavam de cócoras lambendo os rabos uns dos outros no intuito de receberem festinhas. Tal era a ganância desses gestos que os hospitais estavam sempre lotados com casos gravíssimos, como rabos desgastados pelas lambidelas ou por artroses nas mãos ,resultado de actos sistemáticos de esfregadelas nas costas . Mas neste mundo abjecto, existia alguém que não andava de cócoras nem se prestava aqueles gestos obscenos, resultado de uma vassalagem emética. Era olhado como indigente e pontualmente prejudicado pela (in)diferença. Mas era feliz. Não obstante todas as idiossincrasias deste ser, ele tentava amiudadas vezes interagir com os demais habitantes deste país, mas invariavelmente era posto de parte e relegado para planos perpetuamente humilhantes.
Até que um dia este ser decidiu mandar tudo à merda, cortar os laços com a terra que o viu nascer e partir em demanda de pessoas interessantes, com as quais pudesse dissertar sobre a vida sem ter que lamber rabos ou fazer festas. Juntou  forças, emparedou  medos  e partiu sem rumo, munido apenas e tão somente com a vontade férrea de alcançar um lugar habitado por gente com ideias.
Calcorreou aldeias e cidades, lidou de perto com a promiscuidade mental, com excreções corrosivas que gente acéfala cuspia propositadamente.
Calava as mágoas com um extensíssimo rol de sorrisos , coroados pelos bons fluidos cardíacos , apanágio de uma essência com carácter. Engolia doses incomensuráveis de antídoto, daquele que combate eficazmente a inveja e crescia em sabedoria , cultivando o distanciamento necessário para manter a boa sanidade mental.
Aqui e ali, foi encontrando outras pessoas com ideologias análogas, mas poucas, diga-se em abono da verdade. Mas a qualidade sobrepunha-se, em detrimento da quantidade.
Mas um dia decidiu que se impunha uma paragem  nesta aventura intimista.
Regressou ao local de origem. O seu mundo interior estava agora mais completo, mais recheado de experiências adquiridas com algumas pessoas que foi encontrando no seu caminho.
Ainda que persistisse nele uma sensação de desprezo perante uma camada significativa da sociedade ,moldada e formatada para a inépcia, a ganância, inveja(…)  a verdade é que tinha conhecido excelentes seres e percebeu que a diferença está dentro de cada um, na capacidade de discernimento e consequentes acções. E qualquer lugar podia ser bom para ele, desde que se sentisse bem consigo, até um lugar chamado Lambotice.

Carmo Bernardo

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