O crematório das vontades
-Não quero entrar, já disse, leva-me para a minha casa e paga a alguém para tomar conta de mim.
-Mas mãe, não podes estar sozinha em casa,aqui tratam de ti….
-Não tratam, tenho nojo da minha família, enganaram-me e obrigam-me a estar aqui.
-Já disse, quero ir para casa.
A filha exasperada perde as estribeiras e grita com a mãe, que agarrada ás grades do muro respira ofegantemente e teima em não querer entrar para o sítio para onde a trouxeram contra a sua vontade.
Pacientemente, convido-a para entrar, para tomar um chá comigo e conversarmos no escritório. Refuta terminantemente o convite, alegando que querem enganá-la mais uma vez. Pergunto-lhe se quer um copo com agua e açúcar, ao que a dona Judith responde que não ,certamente aproveitarão para lhe adicionar drogas para que lhe destruam a vontade.
Esta cena grotesca passou-se ontem , após uma saída da senhora ao médico. Um discurso coerente, que me deixou literalmente de rastos, tal a minha impotência face á situação.
Após muito tempo decorrido e opiniões que me revoltaram o estômago, a senhora aquiesceu entrar no lar e tomados os comprimidos para dormir e quiçá calmantes em dose redobrada, permitiu que tratassem dela como um autêntico cordeirinho servil.
Soube um pouco da sua história de vida….deu aulas, trabalhou uma vida no ministério da educação e com sessenta e tal anos tirou um curso de informática.
Fatalmente começou a acusar alguma senilidade, segundo palavras da filha e a solução foi catapulta-la para a esfera dos esquecidos, dos preteridos, contra a sua vontade.E gradualmente desossam as suas vontades, até ao tutano.
E funcionárias que se outorgam de benfazejas criaturas, doutoradas em coisa nenhuma, que auto proclamam um profundo conhecimento e uma humanidade inexcedível zelam por estes seres destituídos de vontade e de afectos, exercendo papel de verdugos.
Hoje li que o processo de canonização do papa João Paulo II está em andamento, devido a um milagre ocorrido com uma tal senhora portadora de uma doença incurável….que se curou!!Fico feliz pela senhora, a sério que fico, gosto de ver as pessoas felizes e cuja fé é tão grande que acreditam no que não é acreditável. Quem me dera ser assim….mas não consigo, quando dão mais importância á canonização de uma pessoa, igual ás demais, que em vida desempenhou o seu papel, mas que já não pertence ao mundo dos vivos e que certamente aos olhos de Deus não merece tratamento diferente dos outros mortais.
Estou absolutamente consciente da hipocrisia vigente que vigora em grande parte das pessoas e sobretudo das instituições que existem para zelar pelos idosos.
Não estranho portanto, que de quando em quando se utilize este tema para extorquir benefícios, de forma quase leviana e com consequências nefastas para os próprios idosos.
A segurança social, esse antro de almas caridosas e de uma competência sem limites, observa do seu alto pedestal as situações, elabora os processos e na maior parte das vezes padece de uma cegueira estrondosamente vergonhosa. Expurgam as suas responsabilidades, com palavreado sem conteúdo que para os incautos serve como uma luva. E emprestam ás suas acções um pretensiosismo exacerbado, uma vez que mais não fazem aquilo que lhes compete é para isso que auferem ordenado, ainda que manifestamente incompetentes, na generalidade.
Visitam lares ilegais, detectam irregularidades, quase sempre de teor técnico ,não estão ali para avaliar o nível de felicidade dos idosos, isso acarreta muito trabalho mental, muito desgaste psicológico e as criaturas não estão formatadas para isso…estipulam multas e dão ordem de encerramento, mas depois não voltam mais, a não ser que haja denuncia. E permitem que os idosos sejam deslocados, como se de mercadoria se tratasse, para outro local, inacessível aos seus olhos toldados pela inércia.
Quantas e quantas Judith proliferam por esses lares ilegais, ostracizadas por quem devia cuidar delas.
Desmumifiquem esses cérebros, é absolutamente urgente arregaçar as mangas e pôr de parte teorias bacocas. As pessoas são pessoas sempre….em todo e qualquer contexto e sobretudo os idosos, com um acúmulo de vivências, não devem servir como moeda de troca para que muitos cresçam em vaidade e prepotência.
Carmo Bernardo

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