quarta-feira, 13 de junho de 2012

Momento solto

Não foi um fim de semana qualquer.

A viagem decorreu de forma descontraída, sempre a trotear musicas que se adaptavam a situação.A companhia também era excelente, afinal estava com a minha filha e mais uma vez iríamos partilhar momentos que perdurarão para a eternidade.
E estava também com o Miguel.
O facto de me afastar do local onde está a minha casa, injecta-me uma energia boa, recheada de luz e calor.Mal chegamos tivemos uma recepção à altura,os meus sobrinhos presentearam-nos com algumas surpresas, feitas por eles.Depois jantámos, num ambiente de alegria, com muita brincadeira, muito riso.Depois de alguns jogos de cartas, enquanto a lareira crepitava perto de nós, fomos todos para a cama.Dormir?Qual quê....mais brincadeiras divertidas que me limparam a alma de alguma toxidade que pudesse existir.
A manhã foi algo , como direi, barulhenta.
Os miúdos a reclamar brincadeira e os meus ossos ressentidos de uma noite onde o descanso esteve ausente.Tomamos o pequeno almoço e fomos beber café numa esplanada banhada pelo sol, tendo por pano de fundo o mar da Zambujeira, de um azul espectacular.
Deixamos o Miguel entregue à dura tarefa de providenciar o almoço, munido de três canas de pesca e sobretudo muita esperança.A pescaria não foi muito rentável, dois robalos fresquíssimos após uma série de horas entre o sol e os salpicos.Mas valeu a pena, mais que não fosse pela satisfação de o ver feliz.
Ao cair da tarde, eu , a Andreia, a Rita ,a Susana, o Roberto, o Miguel ,a Joana e o Lucas fomos conhecer uma zona de mato, local de habitação de javalis.Por sorte não encontramos nenhum, apenas ervas tombadas e excrementos.Depois de muito caminhar, encontramos um sítio lindíssimo, uma pedra imensa rodeada de água escura, cujos habitantes eram alguns insectos e cobras de água.E á nossa volta, rochas muitas rochas escarpadas e um silêncio redutor, característico de sítios privilegiados que só a natureza pode oferecer.
As crianças divertiam-se com aquela inocência e curiosidade apanágio da infância e eu, tenho que confessar, que continuo a ser criança e portanto divirto-me imenso com as coisas simples da vida.
Ainda exercitei os músculos a praticar um bocadinho de escalada e subi e desci aquelas rochas e senti-me livre.Livre de problemas e preocupações.
Mas a noite estava chegar e receámos um confronto com javalis, sendo que estava na hora deles deixarem os seus locais de descanso para ir à procura de comida e nós ainda tínhamos um longo caminho para percorrer até ao local onde tínhamos deixado os carros.Atolámos os pés algumas vezes, os caminhos estavam lamacentos, mas que importava isso?O passeio estava a ser divinal.
E lá estavam os carros , para nos oferecer segurança e calor, porque estávamos perfeitamente enregelados!
Enquanto o jantar estava a ser confeccionado houve um pequeno percalço doméstico, hihihihi.
A Andreia, com a sua queda natural para a cozinha, queimou o braço do Roberto com óleo quente.Felizmente não deixou marcas profundas porque não estava a ferver, mas foi o suficiente para a moça se sentir culpada pois devido à sua ( in)apetência para a árdua tarefa de cozinhar quase desfigurava o braço ao pobre rapaz!
Mas passado o susto, lá iniciamos mais um momento familiar digno de registo, o jantar, onde retemperámos as forças e permutamos conversa e gargalhada.
Mais uns jogos de cartas e mais uma noitada de brincadeira.
Mas tudo isto acabou.Hoje, segunda feira, é dia de trabalho para uns e de escola para outros.
Mas a distância física não é nem nunca pode ser argumento para a ausência de afectos e quando não é possível estarmos com quem nos quer bem,podemos sempre recorrer a momentos como estes para continuar a acreditar que é bom não estarmos sós.

Carmo Bernardo







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As histórias dos outros

As histórias dos outros


.Encontraram-se por acaso.Ela há muito que procurava alguém com quem pudesse partilhar as lágrimas e o som dos risos.Ele, procurava alguém com quem pudesse construir uma vida.



Naquele dia, ambos decidiram ir até à praia, observar o mar revolto, entregar os pensamentos às ondas que lambiam languidamente a areia e voltavam de novo para o conforto da imensidão do mar.



Cada um absorto com os seus pensamentos, alheios ao que se passava em redor.



Ela sentou-se e começou a mexer na areia húmida e macia, construindo de forma distraída pequenas formas imperceptíveis.



Ele decidiu meter conversa.



-Olá, posso sentar-me?



Ela olhou para ele um pouco surpreendida pela ousadia, afinal não o conhecia.



Mas anuiu,havia nele qualquer coisa de interessante, de confiável até...e porque não?Afinal estava ali sozinha, não lhe fazia diferença nenhuma trocar umas frases com um desconhecido.



Começaram por falar do mar, das estrelas,do odor a iodo que o mar oferecia naquela manhã ensolarada mas fria de Fevereiro.



Mas a conversa tem pernas , pode galopar a uma velocidade vertiginosa e deram com eles a falar de si próprios.Da tristeza de estarem sós, das perdas, angustias e saudades de um tempo feliz, sem preocupações, em que corriam livres pela vida sem temer o futuro, sem pensar nele sequer.Os olhos dela ganharam uma tonalidade de azul mais intensa.Os dele tinham também um brilho radiante.



E não deram pelas horas que passavam céleres e felizes, pactuando com aquele momento de emoções.



Trocaram contactos, manifestaram vontade de se encontrar um dia para conversar.



Mas a vida é repleta de contratempos e desencontros e por vezes guarda as dádivas como algo muito precioso e inatingível mostrando somente caminhos difusos e destituídos de emoções.Foi o que sucedeu a estas pessoas.Por motivos diversos deixaram que o tempo conduzisse as suas vidas por direcções opostas, permitiram que o esquecimento invadisse as recordações e as reduzissem a uma névoa indistinta.



E passado muito tempo, ambos decidiram ir à praia, para mais uma exorcização, uma busca de purificação.



Ela perscrutou o horizonte,sem objectivo concreto e viu ao longe uma figura familiar, que contemplava o mar .Seria ele?Não ,não podai ser , era muita coincidência.Mas mesmo assim, foi caminhando em direcção a ele e verificou, surpreendida que era a mesma pessoa que há meses atrás lhe tinha pedido licença para se sentar.



Olá-disse ela.Como estás?



Ele sorriu.Há muito tempo que desejava encontrá-la, mas devido à insegurança nunca tinha telefonado, receava a rejeição.



Ela confessou-lhe que tinha sentido o mesmo,que temia que o primeiro encontro tivesse caminhado a passos largos para um lugar chamado esquecimento.



Sorriram.Afina, a vida não é assim tão madrasta.Pontualmente diverte-se a pregar partidas, é certo, mas também faculta encontros de alma gémeas.



E nunca mais se largaram.....até hoje.Fui encontrá-los numa aldeia do interior, para onde se mudaram há muitos e muitos anos.Continuam a ter os olhos brilhantes e tem um baú de memórias incomensurável, que abrem muitas vezes para partilhar com os netos.







(esta história não é a minha, mas ....gostava que fosse!!)











Carmo Bernardo



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