Rododendros e buganvílias
"...Eu olhava para a minha avó e não percebia como é que aquela criatura inteligente e que era uma referência para mim, tinha que servir aquela gente afectada, distante, que impreterivelmente ia todos os domingos à missa, ouvia compulsivamente música sacra,cujas criancinhas andavam na catequese, mas que a tratavam como um ser inferior e nem sequer permitiam que eu, uma criança de tenra idade ,brincasse com os filhos ou que pudesse mexer nos seus brinquedos.
Creio até, que nem davam por mim.
Quando estes exemplos de cristandade acabavam de se refastelar à mesa, a minha avó ia quase pé ante pé retirar os pratos, (para não incomodar estas virtuosas criaturas)perguntar se necessitavam de mais alguma coisa.
Lavava a loiça e finalmente sentava-se na cozinha, num banco de madeira, não fosse conspurcar com o seu corpo de pobre alguma cadeira mais confortável. Sub-repticiamente, colocava uma almofada retirada do quarto de brinquedos dos meninos, para que eu pudesse chegar á mesa e caladas, não fosse receber um ralhete dos patrões, mastigávamos a comida que ela trouxera de casa.
Lembro-me que ás vezes quando estava sozinha com a minha avó, escapulia-me sem ela perceber e ia remexer nos brinquedos. Gostava sobretudo de folhear os livros do tintim, embora ainda não soubesse ler; os desenhos fascinavam-me, em minha casa não havia livros, pelo menos nessa altura...
quarta-feira, 14 de agosto de 2019
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