As histórias dos outros
.Encontraram-se por acaso.Ela há muito que procurava alguém com quem pudesse partilhar as lágrimas e o som dos risos.Ele, procurava alguém com quem pudesse construir uma vida.
Naquele dia, ambos decidiram ir até à praia, observar o mar revolto, entregar os pensamentos às ondas que lambiam languidamente a areia e voltavam de novo para o conforto da imensidão do mar.
Cada um absorto com os seus pensamentos, alheios ao que se passava em redor.
Ela sentou-se e começou a mexer na areia húmida e macia, construindo de forma distraída pequenas formas imperceptíveis.
Ele decidiu meter conversa.
-Olá, posso sentar-me?
Ela olhou para ele um pouco surpreendida pela ousadia, afinal não o conhecia.
Mas anuiu,havia nele qualquer coisa de interessante, de confiável até...e porque não?Afinal estava ali sozinha, não lhe fazia diferença nenhuma trocar umas frases com um desconhecido.
Começaram por falar do mar, das estrelas,do odor a iodo que o mar oferecia naquela manhã ensolarada mas fria de Fevereiro.
Mas a conversa tem pernas , pode galopar a uma velocidade vertiginosa e deram com eles a falar de si próprios.Da tristeza de estarem sós, das perdas, angustias e saudades de um tempo feliz, sem preocupações, em que corriam livres pela vida sem temer o futuro, sem pensar nele sequer.Os olhos dela ganharam uma tonalidade de azul mais intensa.Os dele tinham também um brilho radiante.
E não deram pelas horas que passavam céleres e felizes, pactuando com aquele momento de emoções.
Trocaram contactos, manifestaram vontade de se encontrar um dia para conversar.
Mas a vida é repleta de contratempos e desencontros e por vezes guarda as dádivas como algo muito precioso e inatingível mostrando somente caminhos difusos e destituídos de emoções.Foi o que sucedeu a estas pessoas.Por motivos diversos deixaram que o tempo conduzisse as suas vidas por direcções opostas, permitiram que o esquecimento invadisse as recordações e as reduzissem a uma névoa indistinta.
E passado muito tempo, ambos decidiram ir à praia, para mais uma exorcização, uma busca de purificação.
Ela perscrutou o horizonte,sem objectivo concreto e viu ao longe uma figura familiar, que contemplava o mar .Seria ele?Não ,não podai ser , era muita coincidência.Mas mesmo assim, foi caminhando em direcção a ele e verificou, surpreendida que era a mesma pessoa que há meses atrás lhe tinha pedido licença para se sentar.
Olá-disse ela.Como estás?
Ele sorriu.Há muito tempo que desejava encontrá-la, mas devido à insegurança nunca tinha telefonado, receava a rejeição.
Ela confessou-lhe que tinha sentido o mesmo,que temia que o primeiro encontro tivesse caminhado a passos largos para um lugar chamado esquecimento.
Sorriram.Afina, a vida não é assim tão madrasta.Pontualmente diverte-se a pregar partidas, é certo, mas também faculta encontros de alma gémeas.
E nunca mais se largaram.....até hoje.Fui encontrá-los numa aldeia do interior, para onde se mudaram há muitos e muitos anos.Continuam a ter os olhos brilhantes e tem um baú de memórias incomensurável, que abrem muitas vezes para partilhar com os netos.
(esta história não é a minha, mas ....gostava que fosse!!)
Carmo Bernardo
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quarta-feira, 13 de junho de 2012
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